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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Rex

Rex era um cão de guarda exemplar. Pastor alemão puro, ainda que comprado sem pedigree, foi adquirido pelos pais para fazer companhia à pequena Míriam. Na verdade foi um presente dado a ela pelo seu sétimo aniversário.
A amizade entre os dois foi imediata, e sempre muito bem correspondida. Onde a menina estava, lá estava o cão. Todos os dias, na saída da escola, Rex esperava a menina, bem em frente ao portão. Atento. A cidade ainda era tranquila, não havia razão para temer o percurso de volta, e com o cachorro, menos razão ainda. Se, ao sair, algum colega fizesse com Míriam uma brincadeira estranha, Rex já estava em pé. Se a menina gritasse, já se ouvia um latido, e estava ele em posição de ataque. Mesmo os colegas mais ousados não se arriscavam a deixar que a menina gritasse uma segunda vez. Afora isto, o cão ficava absolutamente quieto e imóvel, permitindo mesmo que outras pessoas o tocassem, até sua dona chegar ao seu lado, quando se punha a caminhar com ela.
Afastados da escola, sentindo que Míriam estava mais segura, Rex relaxava. E corria um pouco à frente dela, apenas para parar logo depois, e esperar que sua amiga se aproximasse.
Quando Míriam estava brincando com seus amigos, Rex sentava-se tranquilo, na calçada, observando. Apesar da tranquilidade e do relaxamento, qualquer acontecimento estranho fazia-i ficar atento, as orelhas espetadas, o corpo todo em prontidão.
Se, eventualmente, Míriam ficasse doente, não havia quem afastasse o cachorro de seu lado. Ele deitava-se perto da cama e não comia ou bebia, até que ela estivesse melhor. Só então Rex ia comer e beber água.
Mas existe um problema nesta história. Sempre existe um problema. Míriam cresceu. Tornou-se uma moça. E com a idade começaram a aparecer os namorados. Rex não conseguia compreender o que estava acontecendo. Apenas percebia sua amiga cada dia mais distante dele. Cada dia, menos atenciosa.
Com os primeiros namorados, Rex não teve grandes problemas. Ainda que não compreendesse o comportamento de Míriam, ela lhe dava alguma atenção. Ela ainda saía para passear com ele, algumas vezes. E eles nunca apareciam pela casa por muito tempo. Mas aquele era diferente. Quando estava com ele, Míriam se esquecia completamente de seu cão. Rex não gostava do rapaz, e não se importava em disfarçar o fato. Por diversas vezes foi repreendido por rosnar quando passavam perto um do outro.
Continuava um cão fiel. Se Míriam estivesse triste, imediatamente Rex estava deitado ao seu lado. Se a moça adoecesse, ali estava ele junto à sua cama, como sempre fez. Mas parecia que ela importava-se cada vez menos com sua presença.
E assim seguiu a vida, até que certo dia Míriam entrou em casa alvoroçada. Rex começou a latir, alerta, sua amiga estava gritando, deveria haver perigo. Ela não lhe deu atenção. Conversava com sua mãe, alternando gritos e risos. O cachorro nada compreendia. Apenas observou que, depois daquele dia, a rotina na casa mudou bastante. Havia, agora, sempre muita conversa e correria. E Míriam lhe dava menos atenção que nunca.
O dia mais estranho de todos foi também o mais agitado. Muita gente correndo pela casa. Muita gente estranha entrando e saindo. Rex, pressentindo o perigo, sempre alerta, latiu várias vezes, para intimidar os estranhos ameaçadores. Ao contrário de tranquilizar a família, ao invés de trazer sua amiga para perto de si, os latidos renderam-lhe a prisão na corrente do quintal. Coisa que apenas raramente lhe ocorria, geralmente quando fazia algo errado. E, pelo tempo que o deixaram ali, provavelmente teria feito algo de muito errado.
Finalmente Míriam apareceu, saindo da casa. Estava linda com sua roupa branca. Rex tentou pedir ajuda à amiga, tentou correr até ela, brincar e fazer carinho. A corrente o impediu, e Míriam o ignorou. E desapareceu.
A família voltou, mas Míriam não estava com eles. Rex foi solto e correu para o quarto da amiga, mas este estava vazio. Por muitos dias não a viu. Por muitos dias a esperou, deitado ao lado da cama. Quase não tinha vontade de comer. Não tinha vontade alguma de correr ou brincar. Apenas a esperava.
Um dia, Míriam voltou. Com o rapaz. Conversava animada com a família, e deu ao Rex apenas a atenção de um breve carinho. Depois de algum tempo, foi embora. O quarto continuou vazio.
Agora Míriam vinha com uma certa frequência visitar a família. Cada vez mais estranha, cada vez mais pesada, caminhando com dificuldade. Algumas vezes brincava com Rex, outras vezes o ignorava. Até que um dia houve nova correria, diferente da anterior, mas ainda assim estranha, deixando o cachorro alerta e alvoroçado.
Alguns dias depois, Míriam reapareceu. Não estava mais redonda e pesada. Caminhava normalmente. E trazia algo nos braços. Fosse o que fosse, era a causa do alvoroço dos familiares. Rex precisava verificar. Precisava proteger sua amiga, se fosse necessário.
Pela primeira e única vez em sua vida, Míriam bateu em Rex.
Não foi preciso mais que um tapa. O cão afastou-se, cabeça baixa, rabo escondido entre as pernas, triste, e foi deitar-se em seu lugar favorito, ao lado da cama dela. Inteligente e obediente, compreendeu que não deveria jamais chegar perto daquela coisa que sua amiga segurava com tanto cuidado. Mesmo quando a coisa se revelou ser uma pessoa, como os outros da casa, apenas de menor tamanho.
Quando a coisa vinha em sua direção, primeiro andando como ele, Rex, depois, aos poucos, andando como Míriam, ele fugia, pois sabia que ali havia perigo para ele. O pior dos perigos. Desagradar a quem ele tanto amava.
Nunca teve a possibilidade de compreender realmente o que era aquilo. Nunca arriscou-se perto da criaturinha o suficiente para tornarem-se amigos. Apenas ficava, sentindo o peso de seus anos mais curtos, ao lado da cama daquela que ele tanto amava. Dia após dia. Até o momento em que fechou seus olhos e adormeceu pela última vez. Sem jamais deixar de amar Míriam.


10 comentários:

Whispers disse...

Querido pensador!
Talvez pq hoje esta aqui um dia triste......
Cinzento e um tanto chuvoso
Eu me sinta assim melancólica
Ou porque estou pensando demais na vida
Tua historia me deitou uma lágrima no olho
E revi tanta situação assim
Onde alguém que amamos com devoção
Entregamos tudo que somos
Por momentos somos o seu sonho
A vida nos parece tão risonha,pensamos que nada vai acabar
Tudo na vida muda, tudo começa e acaba
Mesmo aqueles mais verdadeiros sentimentos
Um dia viram pó de cinza, só lembrancas em pensamento
Só que existe sempre quem fica magoado,como o tal cão esquecido
Porque infelizmente nesta merda de vida
A felicidade de uns se torna a infelicidade dos outros
Não esta certo eu bem sei, só que o mundo sempre foi assim
E se guarda tanta magoa, se vive na desilusão
E como cão abandonado,esperamos que um dia talvez
Tenhamos o carinho que se perdeu, da Dona que tanto amava
Amei tua historia,só que me deixou triste confesso
Mil beijos em teu coração e em teu amor
Rachel

Moonlight disse...

Meu Pensador

Hoje ao ler sua historia,chorei.
Chorei porque revi essa historia passada em minha vida.
Quando cresci e obtive minha casa o meu sonho era ter um cachorro.Passado um ano de ter casado(as grandes ausencias que tinha) optei por adquirir um cachorrinho,lindo.Era a minha companhia,andava comigo por todo o lado.
Passado uns anos quando engravidei não fui muito bem aceite por ele,quando minha filhota nasceu,ataca-nos por varias vezes e com medo arranjei-lhe um novo lar...ainda tentei durante 6 meses que se habitua-se,mas foi impossivél.
Tive muita tristeza no dia em que partiu,chorei e fiquei sem dormir algumas noites,mas não poderia correr o risco com minha filhota.
Até hoje nunca mais o vi pois passados alguns anos sube que falecera.
Como vê pensador,sua historia mexeu comigo hoje.
Realmente são companheiros para uma vida inteira,se dão de alma e coração.
Mas tambem são como as pessoas sem duvida algumas.Uns de uma maneira outros de outra.O meu não era dos melhores,não soube lidar com os ciumes,certamente.
Desculpe o meu dasabafo!!!Hoje me alonguei!!!

Bjinho cheio de luar

Pensador disse...

Rachel, este conto saiu totalmente do meu controle conforme foi escrito. Eu pretendia algo menos triste, mas saiu assim. E nunca reescrevo, no máximo eu corrijo os erros. Posso estar louco, mas diria que o conto ganhou vida própria concordo com você, infelizmente, na vida, algumas vezes é preciso que um ou outro sacrifique sua felicidade para que os demais sejam felizes. Quem o faz de livre vontade é um altruísta. E, na minha opinião, tem a mais divina forma de amor que pode existir. Beijos carinhosos, meus e do meu amor para você.

Moonlight, eu entendo a tristeza que você sentiu. Como disse à Rachel, não era este o conto que eu pensei em escrever, mas se saiu assim, deve ser por alguma razão que eu desconheço. Mesmo que a razão seja a minha loucura. Ou até mesmo para eu vir a saber um pouco mais de você, querida amiga. Sua história, real, ilustra perfeitamente meu conto. Lamento pelo seu cão, e posso imaginar a tristeza que foi. Um grande beijo para você, e um uivo especial do seu lobo.

Daniel Costa disse...

Pensador

Uma história ineressante, bem contada. Tem mais se verdadeira, segundo sei, não seria a primeira.
Normalmente o cão afeiçoa-se de tal maneira ao dono, que poderá levá-lo a ser inflexivel na sua fidelidade canina até a morte.

Daniel

Pensador disse...

Daniel,
Obrigado pela visita.
Esta, específicamente, não é verdadeira, e nem mesmo eu pensava em terminá-la assim. Mas, de fato, como ela, existem muitas.
Abraço!

Graça disse...

Boa tarde, Pensador.

Gostei desta tua história. Uma perspectiva diferente de falar das mudanças na vida de alguém. Será que o amor permanece sempre igual?

Um beijo meu.

Bia Maia disse...

Esta sua linda história me tocou profundamente...
Estou aqui pensando sem parar...
Não é à toa que você é o pensador...

beijos em sua alma...

Biazinha...

*Amigo é coisa para se guardar...
AMEI seu comentário...

Pensador disse...

Graça, Obrigado pela visita e pelo carinho. Pergunta difícil, a sua. O amor permanece sempre igual? Não sei. Acho que amar é doar-se sem reservas, então se ama ou não se ama. E o amor pode, sim, acabar. Quando há reservas. Quando há desconfianças. Um beijo.

Bia, obrigado pela visita. Se a história serviu para fazer pensar, então ela tem sua razão de ser.
Beijo!

Anjo azul disse...

Amigo pensador, li e reli a historia do Rex. E faço das palavras da Whispers as minhas.
Emocionei-me sim, não o vou negar. Pk essa historia é daquelas que é preciso ter um coração de pedra para não a sentir tocar no nosso íntimo.
Parabéns!
Um abraço amigo
Anjo azul

Pensador disse...

Amigo Anjo Azul,

Fico feliz que este conto tenha emocionado os amigos que visitam meu pobre cantinho. Como eu disse, o resultado final surpreendeu mesmo a mim.
Espero conseguir escrever-lhes outros contos capazes de agradar.
Um grande abraço!